Com base nos aforismos 32, 33 e 34 do livro O Anticristo, de Nietzsche, iremos entender como ele enxergava quem foi Jesus e o que realmente significa “o reino dos céus”.

“Ele fala apenas do que é mais interior: ‘vida’ ou ‘verdade’ ou ‘luz’ são as suas palavras para o que é mais interior – todo o resto, toda a realidade, toda a natureza, a própria linguagem, tem para ele apenas o valor de um símbolo, de uma parábola.”

Nietzsche, af. 32 – O Anticristo

Com isso, Nietzsche inicia o argumento que criará raízes no af. 33 e florescerá no af. 34.

Reconhecendo duas coisas. Primeiro que Jesus chamou suas “realidades interiores” de “verdades”. E, segundo, que ele utilizou todos os outros aspectos da vida meramente como “peças e ferramentes” (simbolismos e parábolas) para comunicar a mal-compreendida “boa nova”.

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“Com o evangelho, foi eliminado o judaísmo dos conceitos de ‘pecado’, ‘perdão dos pecados’, ‘fé’, ‘redenção através da fé’ – toda a doutrina eclesiástica judaica foi negada na ‘boa nova’.

O profundo instinto para o modo como alguém deve viver para sentir-se ‘no céu’, para sentir-se ‘eterno’, enquanto qualquer outro comportamento absolutamente não leva alguém a ‘sentir-se no céu’: somente isso é a realidade psicológica da ‘redenção’. – Uma nova conduta, não uma nova fé…”

Nietzsche, af. 33 – O Anticristo

Ao dizer que a “boa nova” não é uma nova fé, mas uma nova conduta. Nietzsche ressalta que não se alcança “o reino dos céus” meramente pela “crença” (ou outros joguetes eclesiásticos). E sim por uma nova forma de agir, por uma prática.

Agora, uma vez tomando ciência da natureza simbólica (subjetiva e metafórica) das máximas e parábolas, fica fácil entender os dois grandes erros que se seguem – e que repercutem por quase (se não) todos os tipos religiosos: a dogmatização (2° erro) de uma interpretação literal (1° erro) do que foi falado.

“Nada é menos cristão do que as cruezas eclesiásticas de um deus na condição de pessoa, de um ‘reino de Deus’ que virá, de um ‘reino dos céus’ além, de um ‘filho de Deus’, a segunda pessoa da trindade.

(…) Mas é evidente o que é tocado com os símbolos ‘pai‘ e ‘filho‘ – não para qualquer um, admito: com a palavra ‘filho‘ é exprimida a entrada no sentimento de transfiguração completa de todas as coisas (a bem-aventurança); com a palavra ‘pai‘, esse sentimento mesmo, o sentimento de eternidade, de perfeição. – fico com vergonha ao me lembrar do que a Igreja fez desse simbolismo (…).

(…) O ‘reino dos céus’ é um estado do coração – não é algo que vem ‘acima da Terra’ ou ‘após a morte’.

(…) não é algo que se espera; ele não tem ontem nem depois de amanhã, não vem em ‘mil anos’ – é uma experiência de um coração; ele está em toda parte, não está em parte alguma…”

Nietzsche, af. 34 – O Anticristo

O “reino dos céusnão é um lugar literal e concreto ao qual precisamos “pagar o ingresso” ou “fazer uma barganha” para entrar. É um estado subjetivo e sua “realidade” é interior.

E, logo, toda moralização em cima disso não passa de manipulação política e bitolação religiosa e ideológica. Pois não existe fórmula universal e absoluta para algo que depende das conexões neurais e níveis hormonais de cada indivíduo.

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Cada um desbravará um caminho diferente para o seu próprio “reino dos céus”.

obs.: isso também é uma metáfora.

por Rafael Jordão.

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Obs.: Recentemente gravei um vídeo sobre esse tema:

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