Dois temas nevrálgicos na Filosofia de Nietzsche são: o eterno retorno do mesmo e o amor fati. Dentro dos estudos nietzschianos, existem abundantes interpretações acerca desses conceitos, afastando-me um pouco dos pensamentos metafísicos, estéticos e religiosos, me parece importante frisar a questão do Tempo –quase agostiniano– presente nesses segmentos.

O Eterno retorno do mesmo e a questão do Tempo

A Gaia Ciência, § 341, nos apresenta um nome emblemático para o aforismo: ‘O maior dos pesos’, onde Nietzsche nos mostra a via de seu pensamento através de um demônio furtivo e questionador: ‘‘Esta vida, como você a está vivendo e já viveu, você terá de viver mais uma vez e por incontáveis vezes; e nada haverá de novo nela[…] tudo na mesma sequência e ordem’’

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Tal formulação hipotética me aproxima da visão do eterno retorno do mesmo como experiência mental. A aceitação do exercício de viver tudo novamente impacta de forma profunda na psique. Somos seres contingentes, toda nossa existência está contida na elasticidade das divisões do tempo linear. Nietzsche apresenta toda a impotência da raça humana em lidar com aquilo que já passou e aquilo que virá: como suportar essa impotência? ‘‘Você rangeria os dentes e amaldiçoaria o demônio ou diria que jamais ouvira palavras tão divinas?’’.  

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O Amor Fati

Com a ampulheta do tempo a virar, Nietzsche reverte para o sujeito a possibilidade de olhar de frente para a questão do tempo. Nietzsche conseguiu unificar as três dimensões do tempo num único instante: o presente. Ora, através do Amor Fati [amor ao destino] § 276 de A Gaia ciência, Nietzsche vai além da estética e assegura que amar o que te acontece, seria como uma bela tela vista hoje, ontem e amanhã. No Ecce Homo § 10, ele acrescenta:

‘‘Minha fórmula para a grandeza no homem é Amor Fati: nada querer diferente, seja para trás, seja para frente, seja em toda a eternidade. Não apenas suportar o necessário, menos ainda ocultá-lo[…] mas amá-lo…”

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Não temer o futuro já é um grande passo para amá-lo. O Amor Fati representa a plena aceitação do eterno retorno do mesmo. A consonância entre esses dois conceitos na Filosofia de Nietzsche mostra a possibilidade de querer o que já foi; viver de tal maneira que você não se arrepende de nada que fez, vivendo e amando cada instante novamente, não só hoje, mas também amanhã.